O Transe em Biodanza: uma experiência de integração

Roda inicial_transe e regressão

O Transe em Biodanza: uma experiência de integração

Este módulo foi orientado por Viviana L. Toro Matuk e Susana Sarmento, nos dias 20 e 21 de Setembro. O seu propósito central foi sensibilizar os alunos para a dimensão unificadora do transe e da regressão, enquanto fenómenos de integração psicocorporal e ampliação da consciência, que fundamentam processos de renovação orgânica e existencial no ser humano.

BIODANZA E OS MECANISMOS DE ACÇÃO SOCIAL

Os mecanismos de acção social da Biodanza assentam na educação e na reculturalização. No plano educativo, visam sobretudo a reeducação afectiva e a ampliação dos níveis de consciência. Na reculturalização, fornecem referências sólidas — de carácter antropológico, científico, artístico e outros — que permitem às pessoas alargar a sua visão de mundo e libertar-se dos preconceitos introjectados por uma cultura que, historicamente, se revelou anti-vida. Nesta perspectiva vamos abordar a categoria do transe.

O TRANSE MUSICAL NA PRÁTICA DA BIODANZA

Em Biodanza, o transe é induzido através de um processo de identificação profunda com a música, em que o indivíduo se deixa transportar pelo movimento musical com o fim de anular a percepção da fronteira entre o externo e o interno e “tornar-se a música”. Rolando Toro

Transe significa mudança de estado da consciência e é sempre acompanhado por modificações cenestésicas. O transe musical, específico da Biodanza, é alcançado através dos exercícios e cerimónias de Biodanza, de forma voluntária – decisão de diminuir a vigilância e o controle de si do ambiente – e é induzido pela música e pelo movimento. Entrar em transe é permitir-se um estado de profunda receptividade, entregando-se aos movimentos internos e externos, com uma diminuição temporária da identidade.

O Transe é um importante mecanismo biológico que permite a reparação e renovação orgânicas reproduzindo parcialmente as condições fisiológicas relacionadas com o metabolismo celular da primeira infância.

DIMENSÃO HISTÓRICA-CULTURAL DO TRANSE 

O transe é uma experiência frequente, ou mesmo quotidiana, nas danças religiosas e nas cerimónias xamânicas de todos os povos primitivos do mundo. Rolando Toro

Ao longo da história, muitas sociedades cultivaram o transe em contextos comunitários, rituais e educativos, valorizando a música, o ritmo e o movimento como meios de coesão e expressão colectiva. No mundo ocidental moderno, estes estados modificados de consciência foram progressivamente afastados do quotidiano e frequentemente associados a práticas marginais ou patológicas. O predomínio do pensamento racional, a separação entre corpo e emoção e a valorização do controlo e da produtividade reduziram o espaço para vivências de entrega sensível e integração psicocorporal. Desta forma, a Biodanza recupera, de forma estruturada e fundamentada, a dimensão integradora do transe.

Rolando Toro realizou uma pesquisa antropológica exaustiva sobre os tipos de transe induzidos em diferentes culturas, incluindo o transe místico colectivo em igrejas pentecostais; o transe xamânico  em cerimónias de cura na Sibéria, África e América do Sul, o transe alucinogénico individual e colectivo, e o transe Sufi dos dervixes giratórios na Ásia Menor e África.

TRANSE INTEGRADOR E TRANSE DISSOCIATIVO

A música e a dança podem, portanto, induzir alterações na percepção corporal e estados de transe com perda da própria identidade. Rolando Toro

Além do estudo antropológico, na década de 1960, e integrado no CEAM — Centro de Estudios de Antropología Médica da Escuela de Medicina da Universidad de Chile, Toro iniciou investigações sobre o efeito da música e da dança na percepção corporal em doentes mentais, pesquisas de novas abordagens para a “humanização da medicina” e estudos sobre o transe, liderando um laboratório experimental para analisar a expressão artística em mais de 200 voluntários, sobretudo artistas, sob efeito do LSD-25.

Destas pesquisas nasceu o primeiro esboço do Modelo Teórico de Biodanza (na época ainda denominada de Psicodanza), constituído pelo eixo horizontal, que representa a pulsação entre os níveis de consciência desde a Identidade ao Transe e do Transe à Identidade1.

Certos exercícios aumentavam o sentido de identidade e a consciência corporal, enquanto outros levavam a uma diminuição da percepção dos limites corporais e ao estado de transe. Rolando Toro

A percepção do corpo envolve dois aspectos complementares: o corpo como é conhecido (actividade cognitiva) e o corpo como é vivido (actividade afectiva). O primeiro aspecto foi estudado em profundidade por Jean Piaget, Herman Albert Witkin, Seymour Wapner e Heinz Werner; refere-se ao esquema corporal — a imagem mental que cada pessoa tem do seu corpo — e fundamenta-se em esquemas sensitivo-motores moldados por referências espácio-temporais. O segundo aspecto, relacionado com a experiência afectiva do corpo, foi investigado por Henri Wallon, René Spitz, Seymour Fisher e Sidney Earl Cleveland; baseia-se em mecanismos sensitivo-viscerais e sensitivo-motores imediatos, que permanecem sempre ligados às respostas de tónus muscular e às atitudes posturais que lhes dão expressão.

Toro concluiu com estas pesquisas que:

Todas as alterações da percepção corporal que aparecem nos pacientes mentais, sejam leves ou profundas, indicam um nível insuficiente de integração na organização afectivo-cognitiva. Rolando Toro

Por conseguinte, o transe dissociativo, de que são exemplos o transe psicótico ou induzido por substâncias psicoactivas, caracteriza-se de leves a graves alterações na percepção corporal, com perturbações graves da identidade, cujos efeitos principais são a desvitalização, sensação de frio, isolamento e tendência depressiva.

O transe integrador é um estado no qual a percepção corporal é harmoniosa, favorecendo uma profunda sensação de bem-estar e unidade. Neste estado, diminuem a ansiedade e a angústia, o corpo relaxa e torna-se excessivamente sensível, revitaliza-se, e emergem sentimentos de pertença, fraternidade e amor pela vida que se conservam quando pulsamos de novo para o polo da identidade.

Na técnica de indução de estados de transe integradores, Toro contempla:

  1. a progressividade: exercícios preparatórios são introduzidos gradualmente ao longo do processo;

  2. a dimensão grupal: a vivência ocorre num grupo estruturado e afectivamente integrado, que acolhe, acompanha e sustenta os processos de transformação individuais; neste contexto, a identidade pessoal entrega-se a uma identidade maior — a do grupo — que, num plano arquetípico, representa a espécie humana;

  3. um ambiente protegido: assegura-se um espaço de privacidade e segurança, cuidando do bem-estar dos participantes.

A experiência deste módulo permitiu-nos reconhecer o transe como uma via de integração essencial no processo vivencial da Biodanza, capaz de despertar estados de plenitude, pertença e renovação vital. Através da música, do movimento e do vínculo afectivo com o grupo, acedemos a um espaço de entrega segura e profunda, onde se tornam possíveis a dissolução dos condicionamentos habituais e a emergência de um sentido mais amplo, sereno e uno de si e da vida.

O transe integrador revela-se assim como um caminho para um corpo mais sensível, uma identidade mais expandida e um sentido renovado de comunhão com a existência.

1 Mais tarde, este eixo evoluiu para o continuum entre Identidade e Regressão, cuja pulsação se realiza através do transe, conforme ilustrado no esquema abaixo apresentado.

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