Mito, a narrativa arquetípica da Vida!
No recente módulo dedicado aos Antecedentes Míticos e Filosóficos de Biodanza, contamos com a querida presença de Viviana L. Toro Matuk – co-directora da Scuolatoro, em Milão, antropóloga e investigadora. A sua orientação singular conduziu-nos de forma abrangente à matriz mítica e filosófica sintetizada por Rolando Toro, que sustenta o Sistema de Biodanza.
OS MITOS EM BIODANZA
Este artigo centra-se na exploração do conceito de mito e a sua relação íntima com os arquétipos.
O que é o mito?
O mito é uma narrativa simbólica que confere sentido ao mundo, responde à necessidade de explicar a realidade – a origem da vida, dos fenómenos naturais, das instituições e dos valores sociais. A palavra mito tem origem no termo grego mythos (μῦθος), que remete à ideia de “discurso”:
significa aproximadamente discurso feito pela voz ou palavra sem feitos (Ésquilo: ‘ἔργῳ κοὐκέτι μύθῳ’ [da palavra aos feitos]) e, por analogia, um discurso ritualizado, como o de um líder numa assembleia, de um poeta ou de um sacerdote. Viviana L. Toro Matuk
Na abordagem da Biodanza, o mito é concebido na sua perspectiva antropológica: trata-se de uma forma de verdade culturalmente partilhada, estrutura das visões de mundo e das experiências humanas fundamentais. Os mitos são, assim, instrumentos simbólicos que organizam a realidade e transmitem os valores essenciais de uma cultura.
O mito é uma categoria analítica do universo do religioso, campo de estudo da História das Religiões e da Antropologia, desde finais do século XIX (LIB 4. A dimensão ritual da Biodanza, em Abril 2025):
A linguagem que acompanha a teoria e a prática da Biodanza está impregnada de termos que remetem para o campo semântico do religioso, pelo qual as ciências sociais se interessam desde finais do século XIX, assim como as Histórias das Religiões: são recorrentes os temas do sagrado, do rito, do mito, do numinoso, do êxtase, do acesso ao maravilhoso, do amor, da transcendência e do transe.
As teorias e o estudo destes temas pertencem por tradição ao âmbito antropológico: foi esta disciplina que tornou possível o seu estudo criando categorias, taxonomias, relações e distinções. Viviana L. Toro Matuk
A dimensão arquetípica do mito
Arquétipo é uma representação mental primária, que faz parte do inconsciente colectivo e se manifesta em símbolos presentes em todas as culturas e em cada época histórica.
O inconsciente colectivo é impessoal e universal, é quase invariável e regular, exprime-se na linguagem do mito e da psicologia arcaica, e tem fundamento no corpo. Viviana L. Toro Matuk
Arquétipo deriva de arché, palavra grega que significa “princípio”, “origem” ou “começo”, e significa “primeiro modelo” ou “protótipo”. É um conceito central na psicologia analítica de Carl Gustav Jung que o utilizou para descrever padrões universais e inatos de pensamento e comportamento, presentes no Inconsciente colectivo. São exemplos de arquétipos a Mãe, o Senex – do latim, o “velho sábio”; o Puer – Puer aeternus, do latim, “menino eterno e divino”, a sombra, a persona, a anima, o animus e o “si mesmo”.
Jung define Inconsciente colectivo – parte do inconsciente que compreende as experiências de todas as gerações passadas desde os primórdios da humanidade – como “o mundo das imagens”, composto pela dimensão instintiva e arquetípica:
Os instintos são descritos como formas típicas de agir, na medida em que conduzem o homem a um comportamento humano.
Os arquétipos são definidos como formas típicas de compreensão e percepção humana e de adaptação ao ambiente. Viviana L. Toro Matuk
Os mitos expressam esses arquétipos de forma culturalmente contextualizada, e são veículos para a sua compreensão, revelando temas universais da experiência humana.
Rolando Toro selecciona mitos antigos relacionados com as antigas religiões cósmicas, por forma a resgatar modelos arquetípicos com uma admirável força de transformação para o ser humano contemporâneo. Mitos que celebram a vida e o divino na natureza, como o de Deméter e os Mistérios de Elêusis onde os iniciados recebem a revelação sobre a natureza da existência e o significado da vida e da morte; e o de Dioniso, um caminho para o êxtase através do prazer, um caminho de vitalidade e renovação, associado à inebriação produzida pela dança e pela música, um aspecto que valoriza o instinto, o irracional e o concreto. O mito de Orfeu que utiliza o seu poder musical para influenciar a natureza e induzir processos de cura. O arquétipo de Cristo cuja essência, considerada por muitos pensadores e santos, é o sentimento de amor e misericórdia, uma condição interna inerente a todos os seres humanos e capaz de transmitir saúde.
FILOSOFIA
Sobre os aspectos filosóficos deixamos um breve apontamento sobre os conteúdos abordados.
Toro sublinha os contributos de Pitágoras e Heráclito, filósofos pré-socráticos, que utilizavam a Filosofia como uma forma para compreender a realidade através da observação da physis, palavra grega para natureza. O arché era um conceito central, e por conseguinte, pesquisavam a substância primordial, a origem de todas as coisas.
Para Pitágoras, o arché era a harmonia determinada pela relação entre o número e a música. Estabeleceu relações matemáticas entre as notas musicais e as órbitas dos planetas desenvolvendo a teoria da música das esferas, os sons produzidos pelos movimento das esferas celestes. Postulou a unidade do universo e do ser humano.
O Sistema Biodanza tem muitas afinidades com o legado de Heráclito. Embora da sua obra só se conheçam actualmente cerca de 140 fragmentos, encontram-se certas ideias recorrentes que podemos resumir nas seguintes:
Eterno devir: o todo está sempre em movimento e em constante transformação.
Unidade do universo: relação entre o todo e cada uma das suas partes. Viviana L. Toro Matuk
Nós fluímos e não fluímos no mesmo rio, nós mesmos somos e não somos. Heráclito, fr. 91
Deste fragmento podemos depreender o eixo horizontal do modelo teórico de Biodanza, o continuum entre Identidade e Regressão.
Panta rhei Heráclito,”tudo fluiu”, fr. 17
Os exercícios de Fluidez baseiam-se precisamente no movimento contínuo e harmonioso.
Heráclito considera o fogo como princípio primordial. O fogo sugere o dinamismo, a transformação constante e a integração dos opostos, da vida e da morte, relacionado com Dioniso e com Shiva, a dança das transformações.
Um trabalho ímpar e rico, marcado pela Cerimónia dos frutos – numa alusão ao diálogo de Platão, O Banquete, obra dedicada ao amor que reúne as distintas opiniões dos participantes – um exercício de Biodanza conectado com a vitalidade e com o instinto alimentar, onde deusas e deuses em comunhão celebram, com néctar e frutas, a abundância e exortação da Vida.